Review: Mindhunter – E01S01

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Não é de hoje que ficamos fascinados com histórias de psicopatas e assassinatos. Historicamente, as grandes narrativas desse tipo se passam nos Estados Unidos, trazidas por grandes nomes da literatura e do cinema, como Stephen King e Alfred Hitchcock. Com eles, o gênero “suspense” é consolidado, que tem como objetivo ou efeito criar uma sensação de grande tensão. É nesse espaço que podemos situar a nova série original da Netflix, Mindhunter.

Não podemos ignorar que mesmo já sendo bastante saturado, o gênero de suspense nunca deixou de agradar o público. Diversos filmes desse tipo foram lançados há algum tempo e ainda são muito procurados hoje em dia. Talvez o maior exemplo que podemos tomar é o do imensamente aclamado “O Silêncio dos Inocentes”. Não simplesmente sendo um sucesso de bilheteria na época, não existe uma geração posterior ao filme que não conheça a figura do famoso Hannibal. Recentemente, estamos vendo muitas séries desse gênero sendo lançadas, como “O Nevoeiro” ou “Jogos Perigosos”, não necessariamente com boas críticas.

Para essas novas séries, uma das únicas estratégias que pode fazer com que elas tragam muita qualidade para as telas é através da inovação. Nesse quesito, Mindhunter se sai muito bem, e impressiona o público que assistiu o primeiro episódio sem grandes expectativas. Essa inovação não vem escancarada em aspectos técnicos (fotografia, áudio, atuação), mas sim em sutilezas da narrativa e do roteiro.

Para situarmos um pouco melhor onde a trama se passa, acompanhamos o agente do FBI, Holden Ford (Jonathan Groff), em sua jornada de tentar resolver e entender assassinatos nos Estados Unidos, em 1977. Após não conseguir os melhores resultados em uma negociação de sequestro, Holden é rebaixado, o que desperta nele uma sensação de que os conceitos e os procedimentos aplicados pelo FBI eram falhos. Assim, quase que por puro dever ético, o personagem principal sai à procura de novos jeitos de se pensar em assassinatos.

Aqui podemos começar a identificar alguns pontos de inovação referentes à construção do personagem principal. Diferentemente de personagens clássicos que têm defeitos muito acentuados, caracterizando anti-heróis, em Mindhunter não encontramos isso. Holden é um personagem destemido que tem a ingenuidade como maior defeito. Essa característica não levanta grandes questões sobre a personalidade dele, criando quase que uma pessoa perfeita, absolutamente altruísta e dedicada. Vemos quase que um oposto do que foi construído em “True Detective”, vivido por personagens que estão prestes a atingir o fundo do poço. Aqui a proposta é diferente. A grande questão que deve ser considerada é a frustração que Holden terá conforme for falhando ao longo da série em ser compreendido.

Isso também demostra uma grande preocupação da série em mudar o foco da narrativa. Ainda que não se descole muito da realidade dos “investigadores”, seus focos não vão ser mais as brutalidades dos assassinos. Ao longo do primeiro episódio, apenas uma cena é incumbida de retratar uma morte. No mais, apenas acompanhamos Holden em seus diálogos sobre estudos psicológicos.

Talvez por esse motivo, o episódio também não tenha um caráter tão dinâmico. Qualquer desprendimento pode resultar no desinteresse pelo episódio por completo. Uma das únicas cenas que são encarregadas de captar a atenção do público é a primeira a ser apresentada. A partir daí apenas é feita a manutenção da sensação de tensão. Por isso, alguém pode acabar confundindo falta de dinamismo com lentidão. Com certeza Mindhunter não quer trazer cenas de ação desnecessárias apenas para prender o espectador.

E essa tensão criada pelo episódio merece muitos elogios. A composição entre trilha sonora, áudio, fotografia e direção desenvolve uma atmosfera densa no nível certo. Sabemos que não existe um psicopata que vai surgir aleatoriamente atrás de uma porta, mas estamos sempre com a sensação de que algo ruim está acontecendo ou prestes a acontecer. Grande parte desse feito é mérito da direção com os atores coadjuvantes. Sempre com expressões pessimistas, eles fazem os seus trabalhos sem grandes questionamentos. Ainda assim, o episódio não trata eles com desdém, deixando eles sempre no mesmo nível do personagem principal.

Outra questão interessante é que houve uma preocupação rápida de tratar de questões sociais recorrentes hoje em dia. Em um rápido diálogo, questões sobre igualdades raciais são levantadas, sem comprometer o andamento do episódio. Por se tratar de uma série ambientada em uma determinada época, faz muito sentido apresentar as questões sem aprofundá-las. Trata-se de um breve posicionamento político da série.

Vale lembrar também que boa parte dos conhecimentos da área da psicologia trazidas pela série como inovadoras, hoje já são ultrapassadas. Dentre vários motivos e por se tratar de uma série de época, ela não traz consigo nenhum comprometimento ou responsabilidade científica.

Assim, posso concluir que Mindhunter tem um grande potencial a partir do seu primeiro episódio. Saindo do trivial, desenvolve elementos bastante autênticos, mas nunca perde identidade. Talvez essas sejam as duas grandes chaves para a qualidade desse episódio. O bom conhecimento de sua identidade permitiu que a série possa ser autêntica. Se isso se manter durante a temporada toda, Mindhunter pode ser uma das melhores séries de suspense dos últimos tempos.




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